Questões que assolam a humanidade #20

questões que assolam a humanidade maio 25, 2017


O que é a Hora H?

É um restaurante de hambúrgueres em Espinho, uma música de uma cantora brasileira, um antigo programa do Herman José e, claro, uma expressão usada por toda a gente ainda que ninguém saiba de onde é que ela vem. Seria de esperar que esta fosse apenas mais uma expressão estúpida que os portugueses inventaram para tornar a nossa língua ainda mais difícil, mas tendo em conta que a expressão surge em vários idiomas, esta ideia deixa de fazer sentido na medida em que Portugal importou praticamente todas as suas palavras do latim, grego ou árabe. Exportar palavras e expressões seria um excelente negócio mas Portugal dá-se melhor com a exportação de calçado.

Assim sendo, uma rápida pesquisa pela internet (que, como se sabe, está inundada de sabedoria) permitiu-me perceber que esta expressão está associada a uma outra bastante similar: Dia D. Há quem diga que o Dia D vem da Segunda Guerra Mundial e que se refere ao dia 6 de junho de 1944, dia esse em que os aliados invadiram a Normandia. Foi isto que aprendi nas aulas de história, no entanto, este blog afirma que a expressão vem da Primeira Guerra Mundial. A Hora H define a hora exacta dos ataques. Seja qual for a verdade, a expressão provém da Guerra. Porque é que a usamos no dia a dia referindo-nos a coisas sem importância para o rumo dos acontecimentos mundiais? Não sei, mas penso que este blog já cumpriu o seu propósito de ensinar qualquer coisa às pessoas pelo menos uma vez na sua existência.

Às pessoas que comem cereais com leite quente

comida maio 23, 2017
Também fazem isso quando estão 30º como hoje? É que eu também bebo o leite frio no inverno por isso estou curiosa.

Isto aconteceu mesmo?

eurovisão maio 15, 2017
Ganhámos a Eurovisão. Ganhámos a Eurovisão. Ganhámos a Eurovisão. Ganhámos a Eurovisão. Ganhámos a Eurovisão. Ganhámos a Eurovisão. 

Estou a repetir isto para ver se acredito que uma vez que é real. Nunca pensei que este dia pudesse chegar, sobretudo depois de 2008, mas chegou! E para uma super fã eurovisiva como eu sou, isto significa muito. Não sou maior amante da música nem sequer a tinha no top 5, mas chorei até mais não quando me apercebi que íamos mesmo ganhar.

E, se durante a semana eurovisiva, li uns quantos comentários de ignorantes sobre o Festival, agora que isto tudo acabou, já vi críticas sobre Lisboa ter sido escolhida como cidade sede. Queriam fazer isto onde? Se não se ganha, há críticas, se se ganha também. É preciso paciência. Felizmente daqui a uma semana já ninguém se lembra de nada.

E enganem-se os que acham que a Eurovisão é um concurso de mediocridade musical. Vejo isto há anos e este foi de longe o pior ano a nível musical. Se quiserem nomes de boas músicas com atuações simples (porque ao que parece agora em Portugal ninguém gosta de grandes espetáculos) digam que eu providencio.

Até para o ano Lisboa!

5 ideias de negócio para a vinda do papa

maio 09, 2017
Empreendedores deste país: se têm dinheiro para investir em boas ideias atentem nas seguintes. São todas relacionadas com a vinda do papa Francisco e de fácil execução.

1. Velas perfumadas de Fátima

Quem é que não gosta de queimar umas velinhas com cheiro a baunilha para dar um odor agradável ao seu quarto (ou a outro sítio qualquer da casa)? Então que tal juntar o útil ao agradável e usar a matéria-prima que Fátima tem os molhos para produzir velas com cheiros agradáveis? Com umas bloggers de moda a promovê-las era coisa para se vender rapidamente.

2. Bandeiras portuguesas religiosas

Há muito por onde pegar nesta ideia e depende da criatividade de cada um mas a minha proposta seria trocar a esfera armilar por uma hóstia e depois pendurar essas bandeiras à janela como se estivéssemos no Euro 2004.

3. Ginja com rótulos especiais

A ginja dos castelos de Ourém (é só um castelo mas as pessoas insistem em dizer assim) já é "famosa" por si só e com um rótulo especial com a cara do papa e a frase "garrafa comemorativa dos 100 anos das aparições" o preço subia e as vendas também.

4. Baloiços em forma de terço

O terço gigante que está em Fátima é tão bonito que não há como não querer uma obra daquelas no nosso jardim. Pendurava-se em duas árvores e era diversão garantida. Falem lá com a Joana Vasconcelos que eu deixo-a plagiar a minha ideia.

5. Estadia nas grutas

Já não há hotéis e também já não está propriamente frio portanto junta-se o útil ao agradável e dá-se abrigo nas grutas existentes em Fátima, que ainda são algumas, para as pessoas passarem uma noite agradável e sem calor.

Música de "apoio" para a Eurovisão

eurovisão maio 04, 2017
Há pouco menos de um ano concretizei uma das ideias mais parvas que alguma vez me ocorreu. Quero acreditar que o milagre de a nossa seleção ter ganho o Euro 2016 nunca teria acontecido se não fosse a minha música de apoio e, por isso mesmo, pareceu­-me lógico comprovar esta teoria com algo ainda mais impossível: vencer a Eurovisão. Escusado será dizer que, se isso acontecer, a próxima música que vou fazer é sobre o dia em que eu ganho o Euromilhões.

Fiquem com a minha (muito pouco) fantástica versão de "Amar pelos dois":


P.S. Se acham que eu canto mal, vão ouvir a Lena D'água que isso passa

A qualidade literária da Eurovisão #2

eurovisão abril 30, 2017

Não sei se é moda mas as músicas ultimamente têm letras cada vez mais profundas. Parece que o Fernando Pessoa teve um ataque de esquizofrenia ainda maior que o normal e juntou os 300 heterónimos ao mesmo tempo para criar letras que saíram sabe-se lá de onde. E se na Eurovisão as tendências musicais são seguidas à risca (por isso é que entre 42 canções há umas 35 que são praticamente iguais), as tendências literárias não lhe ficam atrás.

Comecemos pela Austrália (porque é que a Austrália participa na Eurovisão? Ninguém sabe, mas quantas mais músicas medianas, melhor) que envia um rapaz de 17 anos a dizer que já se queimou demasiadas vezes para amar facilmente, daí que com ele o amor não seja fácil nem barato. Vale a pena lembrar que o cantor tem 17 anos e, a menos que seja vampiro e os 17 anos equivalham a 100, não me parece que tenha vivido o suficiente para se "queimar" assim tantas vezes, a menos que isto seja literal e aí começo a preocupar-me com a saúde mental e física do rapaz. 

"It don't come easy and it don't come cheap
Been burned too many times to love easily"

Avançamos e diz ele que se costumava mover rapidamente para apagar o passado. Não querendo ser óbvia, a menos que ele tenha alzheimer (muito precoce) não apaga nada. Felizmente ele chega a essa conclusão no verso seguinte.

"I used to move in fast to erase my past
But it never works, no, it never lasts, no"

Passemos para a Bélgica, cuja música andou nas bocas de todos assim que saiu. Eu, que sou hater por excelência daquelas músicas de que todos parecem gostar, nunca consegui ouvir isto até ao fim. Possivelmente porque a voz dela me irrita e dá sono. É isso ou o facto de ela dizer, e cito: "completamente sozinha na zona de perigo, estás pronto/a para agarrar a minha mão?". Amiga, se estás sozinha, quem é que te vai agarrar a mão? Um fantasma? O teu amigo invisível?

Por falar em zona de perigo, é possível que nessa zona estivesse a representante do Azerbaijão tendo em conta que toda a música em si tem uma envolvente de perigo e a frase mais repetida é "Have my skeletons". Das duas uma: ou ela coleciona esqueletos, ou tem mais que um o que me parece excelente caso precise de peças suplentes, mas ao mesmo tempo bastante injusto tendo em conta que se eu partir costela não tenho nenhum esqueleto bónus para tratar disso.

A Islândia é um dos casos de maior esquizofrenia/estupidez deste ano. Ponto um: ele está debaixo de água a tentar puxá-la. Se alguém nos está puxar para debaixo de água é geralmente contra a nossa vontade a menos que sejamos sereias, certo? Errado. Porque ela procura-o. Sim, ele está a puxá-la para debaixo de água e ela procura-o. Porquê? Não sei, não sou assim tão boa a decifrar códigos. (Notem como não há ponto dois).

"You’re under the water
Trying to pull me under
I reach for you
I reach for you"

Mas se acham que esta maravilha acaba aqui, preparem-se para esta citação: "fazes-me sentir como papel, cortas mesmo através, estou presa a ti como cola, papel...". Eu sei que isto parece inventado, mas não é. Ora eu já experienciei imensas emoções mas nunca me senti como papel. Aliás, atrevo-me mesmo a dizer que além da Svala (que é a cantora), nunca ninguém se sentiu como papel. Como é que nos sentimos como papel? Assumimos os sentimentos de um papel? E que sentimentos é que um papel pode ter? Confesso que sempre achei que aqueles papéis coloridos tinham outro ar que os brancos não têm e por isso imagino sempre que nesta canção ela se refere a um papel azul ou amarelo, mas nunca a um branco. Poderá uma folha A4 branca ter sentimentos? É a questão que fica no ar.

Continuamos numa viagem pelas ilhas e vamos até Chipre (não literalmente) apreciar três minutos de puro barulho (que no fundo é o que isto é) em que se ouve, no meio de uma música de amor, "let me be, be your gravity". Não sei se quem escreveu esta letra tem noção do que é a gravidade mas cá fica "Gravidade é o fenómeno de atração que comanda a movimentação dos objetos. Na Terra, a gravidade é a propriedade que faz com que os corpos se dirijam para o centro da terra", ou seja, a gravidade é o que faz as coisas cair. Portanto ele quer ser aquilo que a faz cair. Que este tipo de romantismo nunca acabe!

Ainda nas ilhas temos aquela música de que ninguém se lembra e que eu não faço ideia a que é que soa. A única coisa de que me lembro são dois versos que dizem: "sem fôlego, vou estar a ver-te para sempre, sabendo que há uma vaga no teu coração". Mais uma vez temos aqui amor ao mais alto nível. Para quem não sabe (ou para quem não se lembra como eu não me lembrava até a Elizabete me alertar para isso) o nosso coração está divido em 4 partes e por isso ela está à espera que ele morra para depois ficar com uma vaga que ele tem no coração. Convém é que ele morra depressa que ela já está sem fôlego.

Larguemos as ilhas e vamos até à Áustria onde o próprio nome da canção é uma piada. "Running on air". Sim, correr no ar. Porque isso nem se chama voar nem nada. Felizmente também há letras com bom senso no palco da Eurovisão como é o caso da da Macedónia que afirma que "tudo o que preciso para me mexer é o som do meu coração". Isto é tudo verdade, até ganhares artrite.

A Alemanha oferece-nos um plágio manhoso de Titanium com uma letra muito interessante: "I've been walking asleep / Dreaming awake (...) / I'm not afraid of making mistakes / Sometimes it's wrong before it's right / That's what you call a perfect life". Para mim perfeito era encontrar agora o bilhete premiado do Euromilhões, mas para ela é ser sonâmbula, sonhar acordada, cometer erros e as coisas correrem-lhe mal e só depois bem. Seem legit.

Nuestros hermanos tiveram uma eleição da canção que os representa bastante interessante. Toda a gente queria uma música bastante má chamada "Contigo" mas o júri acabou por dar a vitória a outra igualmente má chamada "Do it for your lover". E, se não conseguiram decorar o nome por ter demasiadas palavras, não se preocupem porque ele é repetido 21 vezes ao longo dos três minutos que dura a música.
  
No meio disto tudo perdeu-me o melhor verso deste ano quando a Grécia decidiu fazem um revamp da sua música chamada "This is love" (dá para perceber como é má só pelo título, não dá?). Onde agora se ouve "This is love, reaching out for the stars" (que também é bastante mau), antes ouvi-se "This is love, rain falls from above". Genial, não é? "Isto é amor, a chuva cai de cima". Custa-me perceber esta mudança.

No meio de 42 músicas há muitas cheias de clichés, básicas e desinteressantes (não é o caso destas). Há uma ou outra boazinhas (como é o caso da nossa) e há uma absolutamente genial que, curiosamente, corresponde à minha música preferida e também grande favorita à vitória final. Senhoras e senhoras, uma genialidade chamada "Occidentali's Karma":


9, 11 e 13 de março, sintonizem na RTP1 para verem este fantástico espetáculo repleto de músicas assim-assim.

Fora das quatro linhas

Benfica abril 22, 2017
Sempre houve ódio no futebol e isso é um dado adquirido. O que nem sempre houve foram órgãos de comunicação social a espalhar esse ódio. No meu tempo faziam-se notícias sobre futebol e menos sobre extra futebol. No meu tempo os programas para discutir futebol serviam, surpreendentemente, para discutir futebol ao invés do que acontece hoje em dia em que esses programas servem para três atrasados mentais gritarem uns com os outros. Fui lendo umas frases aqui e ali sobre o atropelamento desta madrugada até que decidi ir informar-me no jornal mais vendido do país. O Correio da Manhã conquistou-me logo com o título da notícia:


"Adepto do Sporting assassinado junto ao Estádio da Luz". Notem que se o senhor fosse adepto, digamos, da Fiorentina, o impacto deste título seria nulo. Ou se fosse um adepto do Sporting assassinado em frente ao Continente de Telheiras. Ou, ainda mais radical, um homem atropelado em Lisboa. Nenhum destes títulos dava tantos cliques e, curiosamente, também nenhum deles espalhava tanto ódio. Abrimos a notícia e temos um festival de suposições: "Um italiano ligado à Fiorentina mas que também será adepto do Sporting", "Marco Ficini, de 41 anos, estaria com elementos da claque leonina Juve Leo, de que faria parte"... Os "será", "estaria" e "faria" criam um clima de certeza mas ao mesmo tempo de dúvida. Isto é o melhor que se pode fazer no "jornalismo": não há certezas? Mete-se um talvez que o pessoal acredita e nós depois podemos desmentir dizendo que nunca fizemos afirmações.

Estou ansiosamente à espera para ver como vai ser tratado este caso no Prolongamento, aquele programa onde se discute tão bem o que se passa nas quatro linhas. É curioso que tirei Ciências da Comunicação porque queria ser jornalista de desporto e, hoje em dia, não me consigo identificar sequer com o jornalismo feito neste país. Se há bom jornalismo e bons jornalistas? Claro que há. Ainda há umas semanas tive o prazer de conhecer o Carlos Daniel e dizer-lhe o quanto o admiro enquanto jornalista e comentador desportivo. O problema do mau jornalismo são as pessoas que lêem/vêm este lixo, porque no momento em que o sensacionalismo deixar de vender, os órgãos de comunicação social vão ter de apostar noutra coisa. Até lá vão-se alimentando ódios. 

Letras com nota artística #9: "Pica do Sete"

letras março 27, 2017


Já há uns tempos que me ando a questionar sobre esta música e sempre que a oiço penso "tenho de escrever sobre ela" mas, como todas as ideias que tenho, isso acaba esquecido naquele lugar do meu cérebro que armazenou toda a história da arte dada no 12.º ano. Na semana passada estava a ver a gala do Benfica e quem é que aparece para cantar? O António Zambujo. E o que é que ele canta? O Pica do Sete. Foi então que se fez luz. Atentem na letra:



"De manhã cedinho
Eu salto do ninho e vou p'rá paragem
De bandolete à espera do 7
Mas não p'la viagem

Eu bem que não queria
Mas um certo dia vi-o passar
E o meu peito céptico
Por um pica de eléctrico voltou a sonhar

A cada repique
Que soa do clique d'aquele alicate
Num modo frenético
O peito céptico toca a rebate

Se o trem descarrila
O povo refila e eu fico num sino
Pois um mero trajecto
No meu caso concreto é já o destino

Ninguém acredita no estado em que fica o meu coração
Quando o 7 me apanha
Até acho que a senha me salta da mão
Pois na carreira desta vida vã
Mais nada me dá a pica que o pica do 7 me dá

Que triste fadário que itinerário tão infeliz
Cruzar meu horário com o de um funcionário de um trem da Carris
Se eu lhe perguntasse se tem livre passe para o peito de alguém
Vá-se lá saber talvez eu lhe oblitere o peito também

Ninguém acredita no estado em que fica o meu coração
Quando o 7 me apanha
Até acho que a senha me salta da mão
Pois na carreira desta vida vã
Mais nada me dá a pica que o pica do 7 me dá"

Ponto 1: alguém disse ao Zambujo que não há nenhum elétrico com o número 7 em Lisboa? "Ó Jessica mas quem é que te diz que a história da música se passa em Lisboa?". É uma questão pertinente e basta olhar para o videoclip para perceber que este elétrico é, de facto, o 15 e não o 7 (até porque o 7 não existe). Se era para escrever uma música sobre elétricos, escolhia um número entre o 15, 18, 25 ou 28. Outra coisa interessante no vídeo é o tempo que demora o percurso. Notem que ela entra no elétrico "de manhã cedinho", anda um bocado, entretanto é noite e depois volta a ser dia. De facto já cheguei a fazer o percurso completo do 15 e parece demorar um dia inteiro.

Mas passemos à letra que é para isso que eu cá estou. Numas festas da terrinha há uns meses estava a dar esta música e eu comentei com a Sara a minha indignação em relação ao facto de não haver um elétrico 7 em Lisboa e foi aí que ela me alertou para outro problema nesta letra. Pensava eu que o rapaz ficava com a pica por causa da rapariga que estava no elétrico. Afinal não. Quem lhe dá pica é o pica ("mais nada me dá a pica que o pica do 7 me dá"). Claro que este verso funciona em termos métricos bastante bem e por isso faz sentido tê-lo na música. O problema é que no resto da música temos mais indícios de que o Zambujo está perdido de amores por um pica da carris, senão atentem nos versos: "E o meu peito céptico/Por um pica de eléctrico voltou a sonhar"  e "Cruzar meu horário com o de um funcionário de um trem da Carris".

Seria de esperar que estes fossem os únicos problemas desta letra, certo? Errado. Atentem na primeira estrofe: "De bandolete à espera do 7/Mas não p'la viagem". Calma lá, então ela está na paragem, à espera do elétrico mas não está à espera da viagem? Então está na paragem a fazer o quê? A apreciar a vista? Há muitos miradouros em Lisboa para fazer isso. 

(Eu sei que a quantidade de vezes que disse elétrico neste texto é absurda)

Expressões parvas usadas pelos portugueses

língua portuguesa março 22, 2017
A língua portuguesa é rica em figuras de estilo e a metáfora é uma das mais utilizadas sobretudo em expressões do nosso dia-a-dia. Qualquer estrangeiro que nos oiça a dizer uma das 10 frases que se seguem fica a olhar para nós como se fossemos as pessoas mais estranhas. Porquê? Porque, de facto, a grande maioria delas são parvas e não têm nada a ver com o seu significado.

Passar pelas brasas

Porque dizer a alguém que essa pessoa acabou de dormir uma sesta é demasiado mainstream, diz-se que a pessoa acabou de passar por brasas. Ou seja, em vez de nos referir-mos a dormir, falamos de brasas. Porque é que não dizemos então "passar pelos fósforos" ou "passar pela lenha"?

Valer a pena

O meu pai costumava responder tantas vezes à expressão "não vale a pena" com um "vale a galinha" que eu acabei por ganhar essa mania e digo-vos que é extremamente irritante. Mas de facto qual é a lógica de dizer que algo vale ou não a pena em vez do esforço? Não iria dar ao mesmo dizer esforço em vez de pena? Claro que sim, mas os portugueses acham que não vale a pena (nem a galinha) falar como pessoas normais.

Muitos anos a virar frangos

"Como é que fazes isso tão bem?" "Olha, são muitos anos a virar frangos". Felizmente os meus talentos são pouco mais que nenhuns e, por isso mesmo, ninguém me pergunta como é que eu sei fazer o que quer que seja. Evitam-me o trabalho de usar esta expressão ridícula.

Bater as botas

Não, a sério, alguém pensou que bater botas não tem absolutamente nada a ver com morrer? Quem é que inventou isto? E quem é que achou esta metáfora tão genial ao ponto de a usar?

Apanhar ar

As pessoas dizem constantemente (principalmente nos filmes porque na vida real ninguém usa esta expressão) que precisam de apanhar ar e, no entanto, eu nunca vejo ninguém realmente a apanhar ar. Não sei se é mais estúpido alguém dizer que precisa de apanhar ar ou dizê-lo e não o ir apanhar. Esta expressão só faz sentido para aquela pessoa que decidiu fazer da venda de ar de Fátima um negócio.

Ter lata

Mas lata de quê? De tinta? De sumo? Ou uma daquelas que dão com as fitas de finalista na faculdade? Expressão demasiado genérica, há muitas latas no mundo.

Barriga a dar horas

Da mesma forma que a palavra saudade só existe em Portugal, as barrigas que dão horas também. É uma pena que a minha não seja dessas porque me poupava muitas idas ao telemóvel ver que horas são. Por outro lado o meu telemóvel serve para pouco mais que isso portanto talvez seja bom a minha barriga não dar horas.

Chorar sobre leite derramado

Já entornei muito leite na minha vida (sobretudo quando estou a abrir os pacotes) e isso nunca me fez chorar. Claro que toda a gente me chama insensível e portanto não sou o melhor exemplo. Digam-me, já choraram por leite derramado?

Procurar uma agulha num palheiro

Será que houve mesmo alguém a procurar uma agulha num palheiro? Será que alguém perdeu uma agulha num palheiro? Ou será que alguém escondeu uma agulha num palheiro? Não era mais simples comprar uma agulha nova? O que é que alguém foi fazer com uma agulha para um palheiro? A quantidade de perguntas geradas por esta expressão são imensas.

Sentir dor de cotovelo

Sim, porque quando se sente inveja de alguém começa-nos claramente a doer o cotovelo. A mim o cotovelo só me dói se bater em alguma coisa, e acreditem que eu sinto inveja. Ainda há dias a senti quando vi que alguém tinha ganho o Euromilhões.

Questões que assolam a humanidade #19

questões que assolam a humanidade março 19, 2017

O que é uma cabeça-de-alho-chocho?

Interessa antes de mais esclarecer a grafia desta palavra. Diz a internet (porque, sabe-se lá como, nunca necessitei de escrever tal coisa em toda a minha vida) que se escreve com hífen, mas parece-me que com o novo acordo ortográfico isso possa ter mudado. Havendo falta de fontes fiáveis, vou manter os hífenes.

Uma pessoa apelidada de cabeça-de-alho-chocho é uma pessoa distraída (pelo menos assim o diz um qualquer dicionário online). Questão respondida. O que me incomoda são os vários significados da palavra chocho tendo em conta que nenhum deles se aplica a distração nem nada que se pareça. E, de todos eles, há talvez um que se aplique a alhos, que é o primeiro. Agora expliquem-me lá porque é que há pessoas que insistem em usar esta expressão...