Notas para futuras idas às compras de António Costa

politiquisses abril 14, 2020
Não sei se tiveram a oportunidade de ver o belíssimo vídeo divulgado pelo Correio da Manhã, esse pilar do bom jornalismo, do Primeiro Ministro a ir ao mercado comprar peixe. No vídeo vemos um pouco de tudo: o PM está na fila e o CM refere inclusive que ele toca com a mão no nariz. Não querendo duvidar da qualidade jornalística do CM, ele toca com o braço. Todas estas informações omitem a mais relevante: que peixe comprou António Costa?

Nem saberia que isto tinha acontecido se os revoltados do twitter não o tivessem mencionado. O título da notícia é: "António Costa apanhado em mercado de Lisboa só com uma luva e sem máscara.". Disseram os revoltados do twitter:

  • Sem máscara? 
  • Só uma luva?
  • Mas ele tinha alguma coisa que ir às compras?
  • Tem montes de empregados e assessores e não podia mandar lá alguém?
À medida que via os insultos, pareceu-me interessante fazer o exercício mental de inventar títulos semelhantes para futuros acontecimentos (porque suponho que em casa do António Costa um saco de peixe não dê para um mês inteiro) e respetivas críticas para poupar trabalho aos revoltados.


"António Costa apanhado em mercado de Lisboa só com luvas e sem máscara."

  • Com luvas? Depois mexe em todo o lado com as luvas, já se sabe como é.

"António Costa apanhado em mercado de Lisboa só com luvas e máscara."
  • Pois, não há máscaras para ninguém, mas o senhor primeiro ministro já tem as que quer. 
"António Costa envia empregado ao mercado de Lisboa."
  • Nem sabe dar o exemplo. Vergonhoso colocar outras pessoas em perigo. Deve achar que é mais que nós.
É um exercício engraçado, não é? Vá, agora vocês.

Make democracy great again

politiquisses janeiro 09, 2016
Num dia em que toda a gente parece ser extremamente entendida em política, quero assumir aqui (como já o fiz diversas vezes) que não faço parte desse grupo de experts. É um dos muitos assuntos dos quais sei pouco mais que nada. Aliás, parece-me sensato dizer que sei o mesmo de política que o Trump e é isso que me preocupa mas ao mesmo tempo me dá esperança de poder fazer o que quiser da vida sem ter qualquer tipo de experiência prévia. Quando soube da vitória republicana dei por mim a pensar no que seria uma pessoa que sabe tanto de política como a liderar os Estados Unidos da América. É assustador. Estamos em 1933 outra vez e ninguém nos avisou. 


Digo frequentemente que as pessoas são estúpidas, só nunca achei que fossem tanto. Hoje parece que toda a gente concorda comigo nisto. Ainda ontem, em conversa com a Sara, ela dizia que estava preocupada com o facto de o Trump poder ser eleito presidente. Eu, na minha ignorância, disse-lhe que ninguém é assim tão burro ao ponto de votar num palhaço. Subestimei claramente os norte-americanos. Para pessoas que vivem num país tão avançado, têm um atraso bastante significativo.

Mas não me parece que a culpa seja maioritariamente das pessoas. Numa primeira análise devíamos culpar os gregos que inventaram a democracia. Um sistema político com "demo" (isto esquecendo que δήμο na verdade significa algo como "povo" e não é uma referência ao diabo) no nome tinha de dar asneira. Mas a culpa não é dos gregos. Do que me lembro da antiguidade clássica, os gregos desenvolveram um modelo de democracia bastante credível já que apenas as elites votavam. Claro que na altura eram excluídos estrangeiros,  mulheres e homens que não fossem filhos de mãe e pai gregos, mas estamos a falar de uma época em que Cristo ainda nem nos tinha salvo dos nossos pecados. Era de acreditar que esse sistema tivesse evoluído até aos nossos dias. Evoluiu mal. A culpa do que aconteceu nos EUA é daqueles que, séculos mais tarde, acharam que toda a gente merecia ter direito ao voto. Está provado que nem toda a gente merece. O que eu proponho é que voltemos à democracia como era feita na Grécia Antiga em que apenas algumas pessoas tinham direito ao voto. Como é que definimos as elites? Fácil: só votam as pessoas que não forem estúpidas. You're welcome America! 

A opinião sobre a opinião política dos portugueses

politiquisses novembro 13, 2015
Já venho um pouco tarde para falar sobre a queda do governo, não venho? As opiniões multiplicam-se pela internet e pelos cafés e é precisamente por isso que eu não venho dar a minha opinião sobre a queda do governo. Sobre isso já todos falaram e dificilmente eu iria conseguir acrescentar algo relevante a essa discussão (até porque grande parte daquilo que eu digo é completamente irrelevante). Assim sendo, venho dar a minha opinião sobre a opinião dos portugueses.

É difícil agradar ao povo português. Tão depressa chamam gatuno ao Passos Coelho, como uns dias depois lhe erguem um altar. Até ao dia em que o Presidente da República indigitou o governo, queriam todos untar o Primeiro Ministro e o Vice com cola super três, fazê-los rebolar em alcatrão acabadinho de fazer, mandar-lhes uns litros de gasolina para cima e acender um fósforo nas suas cabeças (que ficavam sem alcatrão para se poderem ouvir melhor os gritos de dor). Assim que se começou a falar em acordo à esquerda, já queriam todos erguer um novo santuário em Fátima às mesmas pessoas a quem desejavam uma morte dolorosa.

Entre o momento em que se insultavam com palavras menos bonitas os líderes do governo português e aquele em que estes são considerados os melhores governadores de sempre, passaram 11 dias. Paulo Portas demitiu-se "irrevogavelmente" a 2 de julho e foi nomeado vice a 24 de julho. Os portugueses fartaram-se de criticar mas Paulo Portas demorou o dobro do tempo destes a pensar se devia ou não voltar atrás com a sua palavra.

Se António Costa for indigitado Primeiro Ministro acredito que passados cinco dias e meio (para termos uma estatística por onde nos guiarmos para eventos futuros) os portugueses vão estender passadeiras vermelhas por todos os lugares onde o líder do PS passar. O povo português é mais difícil de satisfazer que uma criança bipolar. 

José Sócrates, quer ser meu amigo?

politiquisses janeiro 14, 2015
Acredito que, neste momento doloroso, José Sócrates tenha poucos amigos, tirando o pessoal do PS que o vai visitar por obrigação. Eu, que nunca estive na prisão, também não tenho lá muitos amigos, ou pelo menos não tenho amigos que partilhem comigo tantos interesses como José Sócrates. 

Primeiro que tudo Sócrates é uma pessoa muito querida. Eu fiz 18 anos em janeiro e em abril/maio fui votar pela primeira vez depois de ele se demitir, mas só tinha recebido a carta com o cartão (papel) de eleitor um mês antes - porque Portugal é eficiente e rápido até nestes assuntos. Se o meu futuro amigo se tivesse demitido antes, eu teria de esperar ainda mais tempo para exercer o meu direito de voto. 

Há três características fundamentais que aprecio numa pessoa: ser do Benfica, inteligência e a capacidade de rir e fazer rir. Nenhum dos meus amigos possui estas três característas - muitos deles não possuem nenhuma. José Sócrates possui estas três características e ainda é um mestre do ilusionismo - e eu adoro ilusionismo - que deixa o Luís de Matos a chorar a um canto. 

O ex-primeiro-ministro conseguiu iludir todo o Portugal a votar nele, a deixá-lo roubar e vão ver que vai iludir os juízes e não tarda nada sai em liberdade. Para isto é preciso uma inteligência acima do normal. José Sócrates não acabou o curso de engenheiro porque já estava a congeminar todos os planos do mal para quando estivesse no poder - isso e porque não precisava do inglês para nada porque também já devia ter planeado gastar 25 milhões de euros a tirar um curso de filosofia em França.

Depois há o sentido de humor. Não só o preso número 44 sabe rir-se de si próprio - e inclusive enquanto fala está constantemente com um sorriso irritante  na cara - como tem a capacidade de fazer rir um país inteiro. É o segundo melhor humorista do nosso país, logo a seguir ao Jorge Jesus. 

Há uns tempos vi na capa de uma dessas revistas cor-de-rosa que o sujeito em questão não se importava que lhe levassem a casa, o carro, as jóias e tudo o que ele tem desde que lhe deixassem as acções no Benfica. No fundo, José Sócrates nada mais é que uma versão melhorada da Ágata, até porque, se tirarem o filho ao político, algo me diz que não lhe iria causar tanta tristeza como a perda de acções do Benfica. Se virmos bem as coisas, o homem sabe estabelecer prioridades e nunca me iria marcar um jantar de amigos para um dia em que desse a bola - que é uma coisa que os meus amigos fazemconstantemente.

Dito isto, caro José Sócrates, se tiver acesso à internet a partir do estabelecimento prisional de Évora, contacte-me e talvez me possa dar umas dicas de "como iludir pessoas de que sou extremamente competente de modo a conseguir um emprego em que me paguem bem".