Consequências nefastas do calor

jornalismo agosto 05, 2018
Na praia:
"Boa tarde. Está calor, não está?"
"Está."
"E como é que se vai proteger deste calor?"
"Olhe, bebo muita água e ando mais à sombra."

Numa praia fluvial no interior:
"Boa tarde. Está calor, não está?"
"Está."
"E como é que se vai proteger deste calor?"
"Olhe, bebo muita água e ando mais à sombra."

Numa esplanada qualquer de uma terra que ninguém conhece:
"Boa tarde. Está calor, não está?"
"Está."
"E como é que se vai proteger deste calor?"
"Olhe, bebo muita água e ando mais à sombra."

Numa praça de uma capital de distrito que não Lisboa ou Porto:
"Boa tarde. Está calor, não está?"
"Está."
"E como é que se vai proteger deste calor?"
"Olhe, bebo muita água e ando mais à sombra."

E com esta constatação do óbvio ocupa-se uma bela meia hora de um noticiário. É o tipo de jornalismo que merecemos depois de fazermos 70 publicações diárias em todas as redes sociais sobre quantos graus estão.

Sonhos de vida

frio dezembro 06, 2017
Ir na rua e ser abordada por um jornalista que me pergunta se tenho frio quando estão 2º C. A minha resposta seria qualquer coisa como:

"Olhe, por acaso não. Sucede que tenho todas as minhas t-shirts e calções sujos porque a minha máquina de lavar roupa está avariada, por isso tive de ir ao fundo do armário buscar aquela camisola e calças bem quentes que comprei quando fui à Rússia. O casaco foi só para completar o outfit".

Aí ele questionava-me sobre o facto de eu estar a usar botas, gorro, luvas e cachecol, e eu:

"As minhas sandálias estragaram-se ontem e ainda fui ali à Seaside ver se encontrava umas novas mas só havia botas portanto a modos que trouxe isto. Em relação ao cachecol, gorro e luvas, foram uma prenda da minha tia no natal passado e como vou jantar a casa dela hoje achei por bem usá-los para ela não pensar que eu não gostei da prenda".

Era isto e perguntarem-me prognósticos para um jogo do Benfica só para ter o prazer de dizer: "acho que vai ficar 3 a 0, hat trick do Eliseu".

Fora das quatro linhas

Benfica abril 22, 2017
Sempre houve ódio no futebol e isso é um dado adquirido. O que nem sempre houve foram órgãos de comunicação social a espalhar esse ódio. No meu tempo faziam-se notícias sobre futebol e menos sobre extra futebol. No meu tempo os programas para discutir futebol serviam, surpreendentemente, para discutir futebol ao invés do que acontece hoje em dia em que esses programas servem para três atrasados mentais gritarem uns com os outros. Fui lendo umas frases aqui e ali sobre o atropelamento desta madrugada até que decidi ir informar-me no jornal mais vendido do país. O Correio da Manhã conquistou-me logo com o título da notícia:


"Adepto do Sporting assassinado junto ao Estádio da Luz". Notem que se o senhor fosse adepto, digamos, da Fiorentina, o impacto deste título seria nulo. Ou se fosse um adepto do Sporting assassinado em frente ao Continente de Telheiras. Ou, ainda mais radical, um homem atropelado em Lisboa. Nenhum destes títulos dava tantos cliques e, curiosamente, também nenhum deles espalhava tanto ódio. Abrimos a notícia e temos um festival de suposições: "Um italiano ligado à Fiorentina mas que também será adepto do Sporting", "Marco Ficini, de 41 anos, estaria com elementos da claque leonina Juve Leo, de que faria parte"... Os "será", "estaria" e "faria" criam um clima de certeza mas ao mesmo tempo de dúvida. Isto é o melhor que se pode fazer no "jornalismo": não há certezas? Mete-se um talvez que o pessoal acredita e nós depois podemos desmentir dizendo que nunca fizemos afirmações.

Estou ansiosamente à espera para ver como vai ser tratado este caso no Prolongamento, aquele programa onde se discute tão bem o que se passa nas quatro linhas. É curioso que tirei Ciências da Comunicação porque queria ser jornalista de desporto e, hoje em dia, não me consigo identificar sequer com o jornalismo feito neste país. Se há bom jornalismo e bons jornalistas? Claro que há. Ainda há umas semanas tive o prazer de conhecer o Carlos Daniel e dizer-lhe o quanto o admiro enquanto jornalista e comentador desportivo. O problema do mau jornalismo são as pessoas que lêem/vêm este lixo, porque no momento em que o sensacionalismo deixar de vender, os órgãos de comunicação social vão ter de apostar noutra coisa. Até lá vão-se alimentando ódios. 

Campeões da comunicação social

Benfica setembro 03, 2015
Hoje passei os olhos pelas capas dos desportivos e O Jogo dizia algo como "Mourinho queria Luisão" e o Record algo do género "Vieira segurou Luisão". Saí da papelaria a rir, como era de esperar. Luís Filipe Vieira é o grande campeão da comunicação social neste país.

Ponto 1. Para que raios é que o Mourinho queria o Luisão? Não desfazendo do capitão (que é um dos meus jogadores preferidos do Benfica), os 30 e muitos anos não me parecem uma boa aposta para um clube que luta pelas competições internas e europeias (se bem que este ano parece que lutam pela permanência na Premier League). 

Ponto 2. O LFV não podia pedir aos jornalistas que escrevessem sobre um clube menos famoso? Ele chegou a olhar para o plantel do Chelsea? Uma pesquisa rápida na wikipédia mostrava-lhe que o Luisão não tinha lugar no Chelsea. Ficava com o lugar de quem? Do Terry?

Mas que o presidente do Benfica sabe como se defender dos seus erros, ninguém pode negar. Fecha o mercado e o Benfica continua sem laterais. Muito se falou do regresso do Siqueira que, segundo o Correio da Manhã (essa fonte fidedigna) não aconteceu porque o Jorge Mendes esteve "incontactável". 

Conclusão: Temos a equipa menos forte dos últimos anos, mas se não fosse LFV, nem capitão tínhamos. Amanhã vou a Fátima acender uma vela e rezar pelo presidente!

Jornalismo futurista vs. jornalismo de redes sociais

jornalismo janeiro 21, 2015



Que o jornalismo está cada vez pior já não é novidade, mas o que verdadeiramente me intriga nos últimos tempos é o surgimento de alguns tipos de jornalismo sobre os quais não aprendi nada na faculdade. Talvez seja devido à minha falta de conhecimento sobre tal que não consigo arranjar um emprego. Vendo bem as coisas, também não apreciaria ter um emprego em que teria de produzir artigos que remetem ao passado com um verbo no futuro.

Examinemos então a "notícia" do lado esquerdo da imagem. A crónica do Ricardo Araújo Pereira da Visão da semana passada  mostra-nos (e bem) o valor do terá. O verbo "ter" está conjugado no futuro, no entanto a notícia aponta-nos para o presente/passado, "o que significa que talvez venha a confirmar-se no futuro que sucederam certas coisas no passado". O "terá" apresenta-nos toda uma nova forma de fazer jornalismo na medida em que eu posso fazer uma notícia de primeira página que diz "Bruno de Carvalho terá ameaçado Marco Silva para ele começar a ganhar jogos" e ninguém me pode processar por isso. Estou a inventar, mas no futuro pode até confirmar-se que esta minha invenção está certa. Mas ainda mais preocupante que o "terá" (que para mim é dos termos jornalísticos mais geniais alguma vez criados) são as outras duas palavras do artigo. Ponto 1: quem é o Tierry?! Foi preciso ir aos comentários para perceber que é um desses da casa dos segredos. Não sei desde quando é que os participantes da casa dos segredos são assunto de importância nacional, mas talvez seja eu que sou conservadora. Ponto 2: é uma notícia assim tão escandalosa um participante da casa dos segredos ter gonorreia? E o que é isso me interessa? Seria mais relevante para a sociedade se me avisassem que ele está engripado na medida em que assim, caso passasse por ele (e o reconhecesse) podia desviar-me e evitar ficar contagiada. 

Passemos à segunda "notícia" do lado direito. Conheço imensas pessoas que defendem que o Record é melhor que A Bola. Claro que é. Copia notícias da Lusa sem emendar erros e presenteia-nos com este tipo de artigo. Ponto 1: ninguém quer saber do Benito. Eu até gosto dele e é por isso mesmo que o sigo no twitter. Não preciso que os ditos jornalistas me avisem sempre que um jogador do meu clube faz um novo post. Ponto 2: honestamente, quem é que quer saber se ele está "impressionado" com tanto acidente? Ontem ele também publicou uma foto no instagram, onde é que está o artigo sobre isso? Sinto que tenho de mudar a segurança da minha conta do twitter antes que o Record faça uma notícia com o twett meu - que diga-se de passsagem, interessaria mais do que a gonorreia do Tierry.

Depois destas beldades, fui obrigada a ver o telejornal da TVI. Sim, que aqui em casa é o meu pai que manda na televisão a menos que eu queira ver futebol. A TVI volta a presentear-me com o "terá", no caso específico na forma de "poderá ter". Ronaldo poderá ter uma nova namorada. O Gerrard vai sair do Liverpool, mas sobre isso nem uma notícia. Mas o Ronaldo tirou uma foto com uma jornalista da Real Madrid TV portanto poderá ter uma nova namorada. É pena ele não ter tirado uma foto comigo. Continuava pobre e desempregada, mas pelo menos famosa já era.

Se estiverem a precisar de alguém que produza conteúdo jornalístico, eu ando à procura de emprego e gostava efectivamente que fosse no mundo jornalismo desportivo. Além de saber escrever (que já é um factor diferenciador), também sigo os grandes astros do futebol mundial no twitter, facebook e instagram. Contactem-me.