A péssima prestação portuguesa nos Jogos

17:20

Há portugueses que certamente ainda não se aperceberam do quão forte é o adjetivo “péssimo” e seus semelhantes como “horrível”, “terrível” e afins. Sempre disse desde que comecei este blog que estava aqui também para ajudar os menos entendidos e, por isso mesmo, pretendo desde já esclarecer em que circunstâncias podemos e devemos utilizar tais palavras. Péssima é a maneira como o Ronaldo bate livres. Terrível é o empate de ontem do Benfica frente a uma equipa treinada pelo José Couceiro. Horrível sou eu a cantar Adele. A prestação dos atletas portugueses nos Jogos está longe de ser qualquer uma destas coisas.

Aos olhos do típico português, esta prestação foi péssima. Não foi. Péssimos foram os jogos da seleção no Euro 2016. Mas essa seleção acabou campeã da Europa. Não podemos exigir que a sorte dure para sempre. “Ah e tal mas os nossos atletas deviam ter feito mais, saímos de lá com uma mísera medalha de bronze”. Pois foi, e se as regras do judo não fossem extremamente estúpidas acabávamos sem nenhuma medalha e mesmo assim com uma prestação boa.  

Se eu queria medalhas? Claro. Por mim estávamos a competir com os EUA para ver quem ganhava mais medalhas em toda a competição, mas temos vários problemas que nos impedem de fazer isso mesmo. Primeiro que tudo, não temos um Michael Phelps. Parece que não, mas não é só o treino que faz de alguém um atleta extraordinário. Como em qualquer profissão é preciso aquele Je ne sais quois (sim, tenho ouvido demasiados franceses a falar). Uma pessoa que é um pé de chumbo, por mais que pratique nunca saberá dançar (pelo menos bem). O mesmo se passa com os atletas. Nós temos a sorte de ter alguns atletas de excelência e que conseguem dar-nos medalhas em mundiais e europeus umas atrás das outras. É a esses mesmo que podemos pedir medalhas. A Telma Monteiro é um desses exemplos e este ano cumpriu com aquilo que lhe era exigido (não por nós mas sim pela sua qualidade). O Nelson Évora é outro exemplo e que, mesmo depois de tudo o que se passou com ele, conseguiu superar-se e dar-nos um excelente resultado no Rio. O Nelson é também um exemplo de talento desperdiçado num país que não apoia o desporto. Há uns bons anos atrás, não duvido que com as condições de treino que Portugal nunca teve, teria conseguido a marca mítica dos 18 metros. Mas é o país que temos.

Talvez pudéssemos exigir mais qualquer coisa na canoagem, no ténis de mesa ou no ciclismo, mas talvez as expetativas estivessem muito lá em cima por parte da maioria dos portugueses. Nisto culpo completamente a comunicação social. Cada vez que via um português passar a uma final, ouvia prontamente um jornalista a dizer que ia lutar por medalhas. Iam todos lutar por medalhas. Até aquele da canoagem slalom (que 99% dos portugueses nem sabiam que era um desporto) que tinha sido repescado para os Jogos. Para um desporto de que  eu nunca ouvi  falar (e eu considero-me bastante entendida em desporto), um lugar na final de um atleta que certamente terá uma profissão "a sério" soube-me a medalhas. Mas isso sou eu, que me contento com pouco. No Taekwondo também íamos ganhar uma medalha. É importante salientar que temos alguns dos melhores atletas do mundo, mas importa continuar a salientar isso mesmo depois de eles terem azar (que neste caso não sei se terá sido azar porque sei zero de Taekwondo). 

Só com as medalhas que a comunicação social atribuiu aos canoístas portugueses já dava para ultrapassar os EUA na tabela final. Cada final nos ia dar uma medalha. Claro que depois os portugueses ficavam desiludidos com quartos e quintos lugares, como se isso fosse mau. Por acaso vocês estão entre os cinco melhores do mundo a fazer alguma coisa? Treinam todos os dias depois de irem trabalhar? Quem critica não tem noção das dificuldades que estas pessoas enfrentam. Imaginem-se nos lugares deles a treinar sem apoios, a pagar viagens do próprio bolso para poderem competir internacionalmente e ganhar medalhas que ninguém sabe que existem. Isto não é futebol. Ninguém recebe milhões de euros para treinar. A beleza das redes sociais é precisamente esta de ficarmos a conhecer melhor as histórias destas pessoas através de uns e outros tweets.

Se a falta de apoios é desculpa para tudo? Não. Por vezes também há falta de ambição e a falta do tal je ne sais quoi de que eu falava. Afinal a Grécia está pior que nós financeiramente e conseguiu três medalhas de ouro. Como? Com atletas acima da média (pelo menos o ginasta que venceu o ouro nas argolas é absolutamente extraordinário e arrumou com a concorrência facilmente). 

Assim sendo, antes de falarem, pensem! Eu sei, é difícil pensar antes de falar e eu não costumo fazê-lo muitas vezes, mas acreditem que é uma coisa fantástica! E em vez de se focarem na nossa falta de medalhas, foquem-se nos momentos incríveis que viram como as mil e uma medalhas do Phelps ou a revalidação de todos os títulos olímpicos do Bolt. Ou então foquem-se nos fantásticos resultados de muitos dos nossos atletas que ficaram no top 10. Se já não se lembram, fica o lembrete: 

José Carvalho - 9.º lugar em canoagem slalom
Luciana Diniz - 9.º lugar no hipismo
Rui Bragança - 9.º lugar no Taekwondo
Susana Costa  9.º lugar no triplo salto
Seleção sub-23 - quartos de final no futebol
Rui Costa - 7.º no ciclismo
Nelson Oliveira - 7.º lugar no contra relógio
Fernando Pimenta, David Fernandes, Emanuel Silva e João Ribeiro - 6.º lugar na canoagem
Patrícia Mamona - 6.º lugar no triplo salto
Ana Cabecinha - 6.º lugar nos 20km marcha
Nelson Évora - 6.º lugar no triplo salto
Fernando Pimenta - 5.º lugar na canoagem
João Pereira - 5.º lugar no triatlo
Emanuel Silva e João Ribeiro - 4.º lugar na canoagem
Telma Monteiro - 3.º lugar no judo

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