Letras com nota artística #3: Dunas

18:55

Depois de duas análises de duas letras diferentes [aqui] e [aqui], parece-me a altura ideal para apostar na análise de uma música conhecida de todos. Falo daquela que é a primeira música que toda a gente aprendeu a tocar na viola (toda a gente menos eu que para ler uma pauta preciso de um dia inteiro): as Dunas, dos GNR.

Na verdade apercebi-me do quão ridicula é a letra ontem quando fui ver o concerto da banda ao Bodo. Atentem então na letra de "Dunas":


"Dunas, são como divãs,
Biombos indiscretos de alcatrão sujo
Rasgados por cactos e hortelãs,
Deitados nas Dunas, alheios a tudo,
Olhos penetrantes,
Pensamentos lavados.

Bebemos dos lábios, refrescos gelados (refrão)
Selamos segredos,
Saltamos rochedos,
Em câmara lenta como na TV,
Palavras a mais na idade dos "PORQUÊ"

Dunas, como que são divãs
Quem nos visse deitados de cabelos molhados bastante enrolados
Sacos camas salgados,
Nas Dunas, roendo maçãs
A ver garrafas de óleo boiando vazias nas ondas da manhã

Bebemos dos lábios, refrescos gelados,
nas dunas!
Em camara lenta como na TV,
Nas dunas..
Nas dunas..
Naasss duunas...
Naasss duunas..
Refrescos gelados...
Como na Tv.
Nas duunas.."

Importa antes de mais nada apresentar algumas definições que me parecem relevantes para uma análise cuidada deste belo poema. Todas as definições são do priberam, que eu não ando aqui a inventar nada.

Dunas: monte de areia acumulada pelo vento à beira-mar.


Divãs: espécie de sofá; colecção de poesias árabes; conselho de Estado (na Turquia); sala onde o divã funciona. (vamos acreditar que se referem ao sofá que de poesias árabes e conselhos de estado turcos não sou uma pessoa tão entendida).


Numa abordagem menos realista, até consigo entender que as dunas sejam como divãs. Principalmente na altura em que a música foi lançada. Lembram-se? Quando havia realmente dunas? Quando não era preciso levar areia para a praia? Ah, que saudades desses tempos! Com o primeiro verso tudo bem, certo?

Mas então de onde raios vêm os biombos? Mas isto não são uns biombos quaisquer (ou quaisqueres, que de vez em quando uns pontapés na língua portuguesa também ficam bem na blogosfera) são "biombos indiscretos de alcatrão sujo rasgados por cactos e hortelãs". Este dois versos davam para analisar durante mais tempo que os dez cantos dos Lusíadas. 
  • Ponto 1: claro que os biombos são indiscretos. São coisas (a meu ver inúteis) enormes que ocupam imenso espaço. Para serem discretos precisavam do manto da invisibilidade e é possível que o manto fosse pequeno demais para os tapar.
  • Ponto 2: se os biombos são de "alcatrão sujo", como é que podiam ser discretos? 
    • Ponto 2.1: onde é que se arranjam biombos de alcatrão? É que eu estou a pensar ligar ao Gustavo Santos para me vir mudar a casa e gostava de ter um biombo de alcatrão, mas do lavado.
  • Ponto 3: os cactos rasgam alcatrão? Brilhante. E a hortelã? Rasga alguma coisa?
Passemos à frente. Eu costumo beber de copos ou garrafas. Eles bebem dos lábios. A menos que sejam os lábios da Manuela Moura Guedes, são capazes de ficar com sede. Depois de se refrescarem, gelarem e selarem segredos vão praticar parkour, mas nos rochedos, que não é tão perigoso. Fazem isto tudo em câmara lenta, como na TV. É certo que eu não via a televisão desta altura, mas era assim tudo tão vagaroso? É que agora é ao contrário. É sempre a despachar, a menos que o Paulo Bento esteja a falar. Aí precisamos de meia hora para ouvir uma frase.

Para terminar, se alguém me conseguir dizer o que é a "idade dos porquê", ganha uma conjunto de maquilhagem e cremes. (Ok, não ganha nada, mas estou a adaptar-me à blogosfera e parece que isto faz parte).


Conclusões: as letras dos GNR (que ontem apercebi-me que são todas dentro deste género) são frases soltas (ou mesmo palavras). É mais ou menos o que o Reininho faz quando fala. Diz umas palavras. Às vezes forma uma frase, outras tem menos sorte (e eu faço parte do grupo de pessoas que adora o homem). As letras dos GNR são mais ou menos como os poemas do Fernando Pessoa, a diferença é que rimam.

Se se lembrarem de letras deste nível, avisem. É possível que isto seja a minha vocação.

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